Cap. 3 – Papá “Pasu”

Em um dos artigos trazidos a público em 2025 apresentamos o nosso algoz pelo nome de papá “Pedro”.
Disséramos, na altura, que decidíramos, em respeito à sua memória, mesmo tendo sido ele um servo de satanás, ocultar a sua verdadeira identidade (atribuindo-lhe um nome fictício), embora, diga-se em abono da verdade, muita gente familiarizada com o assunto aqui na zona onde eu vivo não precisa do seu nome verdadeiro para saber de quem estamos a falar.
Mas, hoje, vendo as coisas com mais clareza, achamos que estaríamos a prestar um mau serviço (distorcendo a verdade e a história) se prosseguíssemos nesta senda (na senda da ocultação de factos históricos), optamos (para não prejudicarmos o propósito evangelístico por trás deste testemunho) por identificar o nosso algoz pelo seu nome verdadeiro, na língua quimbundo, de modo a não expormos tanto o bom nome e a honra das pessoas da família que levam o seu sobrenome.
Mas, se o conhecimento do verdadeiro nome (nome em português) do velho bruxo interessar a alguém, basta pesquisar no Google o significado do nome (quimbundo) Pasu na língua de Camões.
Continuando…
Quem era, afinal, o papá Pasu ou (como os mais-velhos lhe chamavam) “Nga Pasu“? Nada mais nada menos que o irmão mais-velho da nossa avó paterna.
Tal como a nossa avó paterna, o papá “Pesu” (pronuncia-se passu), um famigerado e experimentado pescador lá pelas bandas da Ilha do Mussulo (foi pena que tivesse se tornado num pescador de almas para satanás, ao invés de pescador de almas para Cristo) era ilhéu, natural da Ilha do Cabo, província de Luanda.
Depois dos eventos que vimos narrando, ouviu-se algures de que o mesmo tinha sido introduzido no mundo do ocultismo ainda muito jovem, e que o seu feitiço (entenda-se, “poder” satânico”) provinha da India. Se é verdade ou mera especulação, não sei dizer.
O que sei dizer, com propriedade, é que o seu plano macabro de precipitar a minha morte, por via da magia negra, fracassou; fracassou porque o Deus Todo-Poderoso e Misericordioso se apiedou da minha pobre alma enlaçada no laço do passarinheiro e em apuros.
Nestes trinta e poucos anos que me separam daquele traumático evento, uma passagem bíblica continua até os dias de hoje a ressoar no meu subconsciente: “Farei toda a minha bondade passar diante de ti, e proclamarei o meu nome diante de ti. E (um aviso para que ninguém dê a misericórdia de Deus como algo adquirido em caso de recalcitrância no pecado?!…) terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia, e me compadecerei de quem eu me compadecer”, Êxodo 33:19.
Fora no seio familiar, concretamente na casa da nossa avó paterna[1] onde, em finais da década de 80, começamos a ouvir as primeiras acusações acerca do envolvimento do papá Pasu com práticas ocultistas, ou seja… com a bruxaria.
Lembro-me de pelo menos em duas ocasiões ter assistido a minha irmã mais-velha a confrontar o nosso tio-avô, o velho Pasu.
A cada sentença acusatória proferida pela minha irmã, o velho em sua defesa respondia, em quimbundo, “eme mwene, eme mwene[2]?!…”, intercalando a sua fala com estranhos saltos, saltos estes que levavam a minha irmã a acusá-lo de forma ainda mais enérgica de estar a “bungular[3]” em plena luz do dia.
Era realmente estranho e grotesco os movimentos que o velho fazia sempre que em quimbundo pretendia, de forma retórica, manifestar a sua falsa admiração às acusações que lhe estavam a fazer.
Apesar de os gestos e comportamentos deste nosso tio-avô suscitarem alguma estranheza ou causarem um certo desconforto às pessoas próximas (lembro-me de, em certa ocasião, o velho bruxo ter ido à nossa casa “visitar” a irmã e ter encontrado o meu irmão, um adolescente na altura, a tomar o pequeno almoço, e, sem dar cavaco a ninguém, apossou-se da chávena de leite que o miúdo estava a tomar, sorveu um bocado do leite, restituindo-a logo a seguir ao meu irmão para que este continuasse a bebericar daquele leite transformado em qualquer coisa que só ele na sua qualidade de bruxo sabia o que seria, mas, graças a Deus, o meu irmão recusou a fazê-lo), nunca o tinha, até então, chamado de bruxo, por não estar ciente desta sua condição de pessoa má, perversa e perigosa.
Portanto, quando de forma involuntária vi-me a gritar que afinal “o papá Pasu é feiticeiro”, não tinha essa ideia preconcebida ou informação guardada no meu subconsciente. Até ali, ele era somente o nosso avô, o nosso respeitado papá Pasu, não um bruxo pérfido e insensível. O que aconteceu foi indubitavelmente algo sobrenatural.
Mal sabia eu que seria por via deste e outros eventos sobrenaturais ocorridos na minha vida (e/ou à minha volta) que Deus se daria a conhecer à minha pessoa, remir-me e ungir-me com o seu Espírito.
[1] A nossa avó paterna fora a mulher que após a separação dos nossos pais, criou-me a mim, e o meu irmão menor, Tozé, e fora na casa dela (na casa onde ambos fomos criados) onde ocorreram os eventos que estamos a contar.
[2] Eu mesmo?!… Eu mesmo?!…
[3] Uma espécie de dança ritualística com poderes mágicos ou satânicos.