Cap. 6 – A morte do velho bruxo

Dois ou três minutos após a passagem triunfal das três pombas angelicais (os anjos protectores que Deus enviara em meu socorro), comecei a voltar a mim e ao meu corpo.
Fica difícil explicar isso à luz da ciência, mas quem eventualmente terá passado por uma experiência semelhante saberá do que estou a falar.
A minha irmã “mais-velha” que por breves instantes tinha se ausentado do local onde nos encontrávamos, retornou.
Ouvi-a a reclamar em voz alta. A sua indignação era notória na sua fala e voz exaltada: “Esses problemas nunca acabam nesta casa?!…”.
Vi-a a atravessar o vão da porta do quarto onde me encontrava, e, então, ela atirou: “Miro, meu irmão!… O que aconteceu?!…”. Calmamente, comecei a explicar tudo o que eu vira nos minutos em que lutava pela vida.
Disse a ela quem fora a pessoa que estava na génese dos eventos que tinham acabado de presenciar, e que quase me tinha levado à morte.
Mas há algo que deixou as pessoas intrigadas e arrepiadas: ouvirem que durante todo aquele tempo em que eu estava a lutar contra morte decretada pelas Trevas, ter-lhes dito o nome da pessoa que me estava a empurrar prematuramente para a morte: o nosso tio-avô… o irmão mais-velho da nossa avó paterna… o papá Pasu.
Mas, pasmem-se vocês: ninguém, mas absolutamente ninguém, me ouvira a pronunciar o nome do meu algoz, ou seja, do bruxo por trás daquele evento.
Calmamente, fui repetindo tudo o que tinha dito durante o tempo em que estive em cativeiro espiritual, pronto para ser doado em sacrifício a satanás.
E uma após outra, a resposta fora: “sim, ouvimos isso… ouvimos tudo o que você estava a dizer, mas o nome do velho Pasu, não”.
O facto de os meus familiares não terem me ouvido dizer o nome do velho bruxo me intrigou bastante. Um arrepio frio percorreu a minha espinha. Se eu tivesse morrido, nunca eles teriam sabido quem esteve por trás daquele trágico acontecimento.
Muito provavelmente, o bruxo iria ao meu óbito, por ser uma pessoa próxima, daria os seus falsos sentimentos de pesar à sua irmã (minha avó) e ao seu sobrinho (meu pai), e ainda comeria e beberia às custas daqueles que me teriam perdido: os meus entes queridos.
Todavia, este intrigante evento, de o nome do velho bruxo se tornar inaudível aos ouvidos dos meus familiares, mesmo estando eu a pronunciá-lo vezes sem conta, muniu-me de um conhecimento que poucas pessoas dominam: que nos minutos ou segundos antes de a pessoa vítima de um trabalho de bruxaria morrer, ela chega a ver o rosto da pessoa por trás da sua morte.
Hoje, eu sei, que muitas das pessoas que morrem em decorrência de trabalhos de bruxaria tentam, com gestos ou mesmo fala, denunciarem os seus algozes, muitos deles pessoas próximas, mas não conseguem.
Não conseguem em razão de o nome do bruxo se tornar inaudível aos ouvidos dos circunstantes (familiares da vítima) por força de encantamentos ou feitiço de inaudibilidade.
No meu caso, a identidade da pessoa que me estava querendo sacrificar por via da bruxaria só veio a público por eu não ter morrido.
Não morri, porque Deus na sua infinita graça e misericórdia não permitiu que tal acontecesse, tendo enviado os seus santos anjos para me livrarem do laço do passarinheiro e resgatarem dos tentáculos da morte.
A ira da minha irmã mais-velha transbordou. Era perceptível a sua raiva incontida.
Tão logo ouviu o nome da pessoa que nas casas de adivinhação[1] que frequentava era sempre apontada como a causadora dos problemas que ela estava a experimentar, não perdeu tempo: correu imediatamente para a casa do bruxo localizada em uma das ruas imediatamente a seguir ou depois da nossa.
Na verdade, a casa do velho perpetrador não distava mais de 100 metros da casa em que vivíamos, pelo que não demorou muito para que a minha irmã o localizasse, não em sua casa, porque ele já lá não se encontrava, mas a caminho (muito provavelmente) da Ilha do Mussulo, localidade onde detinha uma segunda casa e onde tentava apressuradamente chegar para escapar das consequências do acto macabro que tentara perpetrar contra a minha pessoa.
Trazido compulsivamente à nossa presença, o interrogatório começou. Eu estava assazmente revoltado e com uma vontade férrea de fazê-lo confessar.
Mas, apesar de ser um militar e ter em minha posse uma kalashnikov[2], nunca me passara pela cabeça (nem pela cabeça das pessoas que estavam presentes no local) tirar a sua vida.
Mas, parece que o seu destino estava traçado. Um destino que não dependia de mim, nem de ninguém neste mundo.
Aquele dia, o dia que ele preparara para ser o da minha morte, seria, na verdade, o da sua.
Questionei-lhe do trabalho que fizera contra mim.
O velho bruxo respondeu que não sabia de nada.
Informei-lhe que o tinha visto, pelo que não adiantava ele mentir.
A sua resposta continuava inflexível: não sabia de nada!…
Foi, então, que perdi a cabeça e parti para a violência.
Uma das pessoas que estava presente, e que muito reclamava da acção malévola do velho bruxo em sua vida, golpeou-lhe com um pau.
O velho caiu sobre o chão cimentado, frio e fissurado da sala em que nos encontrávamos.
Não estava desfalecido, nem morto, mas apenas deitado, com o rosto para cima. Parecia pensativo, como se estivesse a remoer algo do seu passado satânico ou a projectar uma retaliação.
Neste momento, algumas coisas estranhas começaram a manifestar-se no local: as córneas dos seus olhos começaram a sofrer algumas metamorfoses, passando do branco para um azul claro, enquanto a sua língua dardejava com movimentos que se assemelhavam aos das serpentes.
Naquele momento, tive a certeza de que alguma coisa de muito sinistra estava a passar-se com aquele homem naquele momento.
Neste ínterim, o chapéu preto (tipo cowboy) e o lenço que lhe eram inseparáveis tinham sido queimados por alguém da família, por acreditar-se que era neles onde estava a sua força ou “poder” sobrenatural.
Horas depois, já em sede de sua casa, o velho bruxo deu o seu último suspiro, e, então, uma outra batalha se projectou diante de mim.
Não a batalha jurídica que se perspectivava em decorrência da sua morte, mas a batalha espiritual suscitada pela conjura falhada, mas ainda activa, e também… pela retaliação[3] demoníaca que se seguiria à morte do velho bruxo.
[1] Atenção: em circunstância alguma vá a uma casa de adivinhação ou igreja que recorre à adivinhação para identificar feiticeiros e/ou problemas do foro espiritual em tua vida ou na vida dos teus entes queridos (Deuteronômio 18:10).
[2] Em razão do conflito pós-eleitoral que no dia 31 de Outubro de 1992 deflagrou pelo país, quase todo o mundo em Luanda tinha, nesta altura, uma arma de fogo.
[3] Represália ou vingança provinda das hostes satânicas.